Notícias Rastreamento molecular para prevenção de câncer de colo de útero muda protocolos tradicionais de cuidados para a saúde da mulher

4 de março de 2026

Validadas em julho de 2025, as novas diretrizes recomendam o uso de testes moleculares para detecção do Papiloma vírus humano causador da doença. A prevenção via rastreamento pode ser realizada a cada cinco anos, sendo o exame Papanicolaou um teste de escolha para rastreamento de lesões

“Caminhamos a passos largos para que o câncer de colo de útero se transforme em algo do passado.” A afirmação é do biomédico, pesquisador e especialista na área de oncologia molecular, dr. Marco Antonio Zonta. Figura central na divulgação, treinamento e discussão das novas Diretrizes de Rastreamento do Câncer de Colo do Útero no Brasil, dr. Zonta integra o Conselho Federal de Biomedicina (CFBM) e é presidente da Comissão de Pesquisa Clínica, Desenvolvimento e Inovação e da Comissão de Citopatologia, Histotecnologia e Análises Moleculares da autarquia. Ele teve papel fundamental na validação do documento publicado pelo Ministério da Saúde, em julho de 2025.

As diretrizes preveem o uso de testes moleculares para detecção de DNA-HPV oncogênico por PCR (Reação em Cadeia da Polimerase) como principal exame preventivo do câncer cervical. O rastreamento identifica a presença do HPV de alto risco oncogênico em até dez anos antes de qualquer alteração celular aparecer. O câncer decorre da infecção persistente provocada pelo vírus na mucosa. O método anterior, o Papanicolaou, só é capaz de buscar lesões celulares já presentes. “O Papanicolaou nunca foi preventivo, mas sim um teste de diagnóstico primário”, explica dr. Zonta. “A possibilidade de rastreamento existe no mundo há cerca de 20 anos, e agora a comunidade científica e os sistemas de saúde público e privado em todo o mundo têm respaldo legal para colocá-lo em prática por aqui.”

Por seu conhecimento na área de políticas públicas, dr. Zonta participou ativamente da transição do modelo tradicional para o novo. Ele ministrou, inclusive, palestras no Ministério da Saúde e nas Secretarias de Saúde para comprovar a eficácia e determinar a urgência de implantação das diretrizes de rastreamento do câncer uterino.

O especialista também está à frente dos mais relevantes estudos brasileiros sobre HPV e infecções sexualmente transmissíveis e é expert em pesquisa e desenvolvimento de biomarcadores para prevenção e epidemiologia de neoplasias ginecológicas/não ginecológicas e oncologia molecular.

Na prática

Desde sua publicação, as Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer de Colo do Útero são de caráter nacional e devem ser utilizadas pelas Secretarias de Saúde dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios. Dessa forma, a partir de 2026, o Papanicolaou será gradualmente substituído – tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) como na rede particular – pelo exame molecular de DNA-HPV.

O Papanicolaou era ferramenta essencial no rastreamento do câncer de colo do útero, possibilitando a constatação precoce de lesões pré-cancerosas. Ele coleta células para análise citológica, detectando alterações causadas – principalmente pelo HPV – antes que evoluam para câncer. Já o molecular identifica a contaminação pelo HPV e outras infecções sexualmente transmissíveis até dez anos antes de o vírus causar lesões, permitindo prevenção, tratamento prévio e aumentando as chances de cura.

Devem se submeter ao teste molecular mulheres de 25 a 64 anos ou aquelas sexualmente ativas, mesmo fora desta faixa. Quando o resultado for negativo para HPV de alto risco oncogênico e não ocorrerem sinais compatíveis com a doença, o próximo exame será feito em até cinco anos. “Conhecendo a história natural da doença e sua evolução da infecção, o período é uma margem segura, aguardar cinco anos para outra avaliação”, afirma dr. Zonta.

Já as diagnosticadas com lesões pré-cancerígenas ou com imunidade baixa podem requerer intervalos menores, segundo orientação médica. Porém, se no rastreamento for encontrado um tipo oncogênico – como o 16 e o 18, responsáveis por 70% das lesões precursoras de câncer –  a paciente será encaminhada, obrigatoriamente, à colposcopia.

“As mulheres precisam confiar no novo protocolo sugerido por seus médicos. Por sua vez, o médico – que não está acompanhando as mudanças que o avanço da tecnologia traz – também necessitam se informar e adotar os processos atuais”, defende dr. Zonta. “Esses são dois grandes desafios a serem enfrentados.”

Vale lembrar que o rastreamento não concorre com a vacinação contra o HPV. São procedimentos paralelos: a vacina HPV é recomendada para meninos e meninas de 9 a 14 anos, com dose única ministrada pelo SUS desde 2024. O imunizante previne cânceres de colo do útero, pênis, ânus, orofaringe e boca. Adolescentes até 19 anos não vacinados e grupos específicos (imunossuprimidos até 45 anos) têm direito à vacinação na rede pública.

Cenário

O HPV assina mais de 99% das neoplasias cervicais. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), em 2025 houve mais de 17 mil novos episódios de câncer uterino no país, com taxa ajustada de 13,25 por 100 mil mulheres, fazendo deste o terceiro câncer mais incidente entre este público.​ Só em 2023 foram registrados mais de sete mil óbitos provocados pela doença. Porém, a comunidade científica acredita que com altas coberturas de vacinação e os exames de rastreio molecular organizados, a doença pode ser erradicada em cerca de 20 anos.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) são otimistas e divulgam as seguintes projeções até 2030: vacinar 90% das meninas contra HPV; rastrear 70% delas e tratar 90% dos casos positivos, integrando autocoleta para equidade.​ “Em alguns países da Europa, da Ásia e também nos Estados Unidos os números têm diminuído devido às políticas públicas implantadas. Este cenário é viável”, afirma dr. Zonta. “Mas quando pensamos em países de baixa e média rendas – como o Brasil e boa parte da América Latina – esta realidade ainda será utopia em 2030”, observa.

Papel dos biomédicos

Segundo dr. Zonta, a transição para o teste molecular de HPV – não só para rastreio do câncer cervical como para outros tipos de cânceres que afetem mucosas – tende a aumentar a procura por biomédicos em laboratórios. A especialização em biologia molecular e citopatologia possibilita que a classe atue na execução dos exames de Citopatologia cervical, PCR, genotipagem, interpretação de resultados e integração de fluxos. “O novo protocolo envolve tecnologia de ponta e, por isso, requer mão de obra específica. A introdução do teste molecular para HPV no Brasil, especialmente no SUS, amplia a relevância de biomédicos inseridos nesse processo, pois envolve técnicas de biologia molecular, que demandam expertise biomédica”, lembra o especialista.

Eventos internacionais

Disseminar os benefícios do rastreamento do câncer de colo do útero e entender os processos que ocorrem em demais países é um dos objetivos do trabalho do dr. Marco Antonio Zonta. Em 2025, o conselheiro ministrou palestra no 1º Simpósio Internacional sobre o Vírus do Papiloma Humano (VPH/HPV), em Lima (Peru). Em sua apresentação, discutiu a integração da genotipificação do HPV, compartilhando avanços obtidos pelo Brasil em programas de vacinação e rastreamento. “Falamos da descentralização de serviços, custos de vacinação e estratégias para populações vulneráveis.”

Já em Bangkok (Tailândia), também no ano passado, participou da 37ª Conferência Anual da International Papillomavirus Society (IPVS 2025), evento científico, que teve por tema “Pesquisa Rumo à Eliminação Global de Doenças e Cânceres Relacionados ao HPV”.

Em março de 2026 marca presença no Eurogin 2026, em Vienna (Áustria), o principal congresso internacional multidisciplinar sobre infecções por HPV e cânceres associados, com foco em prevenção, diagnóstico e tradução de pesquisas para a prática clínica.

Dr. Zonta acredita que o intercâmbio de informações internacionais é extremamente oportuno. “Temos que dar e colher exemplos, entendendo como as diretrizes de rastreamento do câncer de colo do útero estão acontecendo ao redor do mundo. Dessa forma, criaremos uma cultura global no combate a essa doença, melhorando a expectativa e qualidade de vida das mulheres e, consequentemente, de suas famílias.”