A população mundial está envelhecendo. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que, em 40 anos (1980-2021), o número daqueles com mais de 65 anos passou de 260 milhões para 761 milhões. Estima-se que, em 2050, a cada seis pessoas, uma terá mais de 65 anos. Para este mesmo ano – mostram as previsões – o grupo com mais de 80 estará triplicado em relação ao que temos atualmente, chegando a 426 milhões de octogenários. O Brasil segue a tendência mundial: projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) calculam que os 65+ devem crescer 122,7% até 2055.
A explicação para tal fenômeno envolve desde queda nas taxas de natalidade até expectativa de vida mais longa graças às melhores condições de saúde conquistadas pelos avanços da ciência, com a disponibilidade de medicamentos (incluindo vacinas), maior controle e tratamentos para patologias, como as cardiovasculares, e mais acesso a serviços de saúde.
“Trata-se de um acelerado processo de transição demográfica”, afirma o especialista em Gerontologia Biomédica dr. Geyzon Gonçalves de Melo, conselheiro do Conselho Federal de Biomedicina. “Este fenômeno — conhecido como silver tsunami — exige profissionais gabaritados para enfrentar desafios, como doenças crônicas e multimorbidades, fragilidade, dependência funcional e síndromes geriátricas, além da demanda por tecnologias e reorganização da rede de cuidados voltadas a enfermidades de longa duração.”
Segundo o conselheiro, a Gerontologia Biomédica tende a se expandir de forma natural e sustentada, com crescente projeção na saúde pública, privada e na pesquisa translacional. Regulamentada pela Resolução nº 397 do CFBM, em 30 de julho de 2025, a Gerontologia é uma das habilitações da Biomedicina. Visa oferecer formação específica para atuação multidisciplinar dos biomédicos, contribuindo para a integração da pessoa idosa ao ambiente familiar e auxiliando nos cuidados de modo direto ou indireto.
Atuação
De acordo com a Resolução nº 397, os biomédicos habilitados para Gerontologia estão aptos a trabalhar em equipes multiprofissionais. Entre essas ações diretas temos: prevenção de agravos; elaboração e execução de planos de cuidado; avaliação gerontológica ampla, integrando aspectos biológicos, fisiológicos e patológicos do envelhecimento; trabalhos científicos, incluindo investigação de biomarcadores, fisiopatologia e inovações aplicadas à longevidade saudável.
Biomédicos gerontólogos também podem ocupar cargos de docentes e supervisores e coordenadores, além de assumir responsabilidade técnica por serviços, programas ou estabelecimentos, tais como: complexos gerontológicos, casas-lares, centros de convivência e Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs).
Dr. Geyzon alerta, porém, que há atividades que estão vedadas. Entre elas, realizar atos privativos da medicina, como diagnóstico clínico nosológico ou prescrição médica; exercer funções típicas de outras categorias profissionais de nível superior sem a devida graduação em fisioterapia, enfermagem, psicologia ou assistência social. Da mesma forma, não estão capacitados para atuar como responsáveis por instituições cuja legislação exija formação distinta. “Vale ressaltar que a habilitação em Gerontologia Biomédica complementa, mas não substitui, outras especialidades da saúde”, esclarece.
Pesquisa científica em Gerontologia
Longevos não somente aumentam a demanda pela rede de saúde, mas também colocam a pesquisa científica no centro das soluções futuras. “Programas de pós-graduação e estudos em Gerontologia no Brasil já demonstram forte produção acadêmica em áreas como cognição, demências, dor crônica, osteoartrite e tecnologias assistivas, temas cruciais para esta população”, afirma dr. Geyzon de Melo.
A pesquisadora, escritora e especialista em Gerontologia Biomédica – entre outras habilitações – dra. Tereza Raquel Xavier Viana concorda com a importância da Gerontologia. “Sem dúvida, a ciência é relevante como aliada na transformação do cuidado ao idoso”, afirma. “O Brasil vive um envelhecimento populacional acelerado, o que exige inovação e reorganização dos sistemas de saúde.”
Para a especialista, os principais avanços estarão sob três pilares: diagnóstico precoce e acessível, com uso de biomarcadores, testes genéticos e ferramentas de bioinformática; medicina personalizada, considerando o perfil genético, inflamatório e metabólico do paciente e novas abordagens terapêuticas, incluindo neuromodulação, técnicas voltadas à neuroproteção e à modulação da neuroinflamação, e Cannabis medicinal.
Dra. Tereza Viana tem se concentrado na interface entre genética, neurociência e envelhecimento, com destaque para o estudo de polimorfismos genéticos, especialmente no gene BDNF, e sua relação com a neuroplasticidade e a progressão de doenças neurodegenerativas. Segundo ela, estamos avançando de um modelo centrado na doença para um modelo centrado no indivíduo, baseado em predição, prevenção e personalização.
Cannabis medicinal no cuidado ao idoso
Entre os novos tratamentos que contemplam Biomedicina e Gerontologia temos a integração da Cannabis medicinal. “O procedimento é baseado em critérios técnicos, individualização terapêutica e acompanhamento contínuo”, exemplifica dra. Tereza Raquel. “Em minha pesquisa atual – um ensaio clínico randomizado em portadores de Alzheimer – estamos investigando o uso balanceado de dois canabinoides, o CBD e THC, com foco na modulação de sintomas. E já há evidências sobre benefícios no controle de agitação, distúrbios do sono, ansiedade e alterações comportamentais que impactam diretamente no cotidiano de quem é diagnosticado e em seus cuidadores. Apesar da necessidade de investimento inicial, há potencial economia indireta ao sistema de saúde, com redução de internações, menor uso de múltiplos fármacos e melhora global da funcionalidade do paciente”, observa.

24 de março: Dia do Gerontólogo
Nesta semana, dia 24, foi comemorado o Dia do Gerontólogo, data criada para homenagear os que se especializam no estudo e gestão do processo de envelhecimento. “A celebração é um reconhecimento a todos aqueles que contribuem para o avanço da saúde, da dignidade e da qualidade de vida dessa população. E, entre esses profissionais, ressaltamos o papel cada vez mais essencial do biomédico gerontólogo, pois o envelhecimento ativo e saudável é uma missão coletiva e possível”, afirma dr. Geyzon de Melo.
Para a dra. Tereza Viana, o envelhecer não deve ser encarado apenas como um desafio para a sociedade que abarca este idoso, mas como uma oportunidade para mais buscas por conhecimento na área. “E a Biomedicina tem relevância neste cenário, sobretudo na construção de soluções inovadoras e acessíveis, que cheguem, de fato, a quem mais precisa.”
imprensa CFBM
